terça-feira, 24 de maio de 2011

A angústia na pós-modernidade

       Atualmente, tornou-se muito comum as pessoas irem buscar ajuda nos psicofármacos, na verdade, não só o número de pacientes que buscam esse auxílio aumentou, mas como há também um número crescente de psicanalistas que encaminham seus clientes para que sejam avaliados do ponto de vista psiquiátrico. Para entendermos um pouco melhor esse fenômeno, é necessário olhar mais de perto o contexto atual denominado pós-modernidade. 
        Com o avanço da tecnologia em vários setores da atividade humana, inclusive da indústria farmacêutica, observa-se uma mudança na forma dos indivíduos lidarem com suas angústias. Aliado a essa gama crescente de medicamentos cada vez mais efetivos na remoção de sintomas e com cada vez menos efeitos colaterais, tem-se o pensamento científico que está muito presente. O discurso científico prega que os estados emocionais são derivados de reações químicas que acontecem no nosso cérebro. Ora, se isso é tido como uma verdade concreta e única, nada mais justo se tratar uma desordem psíquica com psicofármcos. Em outras palavras:

Do mesmo modo, se compreendermos o nosso psiquismo como a somatória de fatores bioquímicos, e toda angústia, todo sofrimento psíquico, como um desequilíbrio desses fatores, é perfeitamente coerente prescrever os psicofármacos como a solução universal para esse tipo de sofrimento. (TEIXEIRA, 2005)


            Com esse discurso, em que tudo passa a ser uma questão prática, um simples desequilíbrio na neurotransmissão, o simbólico passa a não ter lugar nesse pensamento.
           
            ...parece haver uma busca de um contato direto com o real, sem a mediação do simbólico e do imaginário. Haveria algo semelhante a um prescindir da linguagem, almejando alcançar uma linguagem do próprio real, escrita no livro da natureza, o qual tratar-se-ia apenas de saber lê-lo. Falar de sujeito nesse contexto, é completamente inútil. O que está em questão doravante não é um sujeito, mas sim as alterações no real do organismo a nível molecular ou celular.  (TEIXEIRA, 2005)

               
                Ou seja, há uma busca desenfreada em se ter um manual com as explicações do real as custas da singularidade dos sujeitos.  Seria difícil pensarmos em um individuo desprovido totalmente de imaginário. Um fato que confirma essa necessidade do sujeito de se preencher de sentido, é a crescente procura por religiões e o próprio crescimento e radicalismos das religiões cristãs. Isso porque, o grande desenvolvimento da ciência não produz nenhum sentido, ou seja, embora os resultados obtidos sejam concretos, eles não são assimiláveis pelo sujeito que necessita de sentido para a existência humana. (Lacan, citado em TEIXEIRA, 2005)
            Com esse convite tão chamativo da era pós-moderna, para que um indivíduo irá mergulhar nas profundezas de suas dores se ele pode contar com a pílula que irá como um passe de mágica remover todas as suas angústias? 
            O problema desse discurso científico é que ele vê o ser humano como um produto de fatores, genéticos, por exemplo, que determinam sua maneira de ser. Isso quer dizer então que sua sexualidade, ter predisposição ao abuso de drogas ou ter olhos escuros são características determinadas pelo código genético de cada indivíduo. O problema está exatamente no ponto em que esse discurso leva o sujeito a se ausentar da responsabilidade dele ser quem ele é. Pois suas características são a ação da genética. Assim sendo, o sujeito nada mais tem a fazer além de aceitar sua realidade.
            Já a psicanálise vê o sujeito como sendo determinado pelo seu inconsciente. E apesar desta neste ponto se aproximar do discurso científico, pois ambas fazem o sujeito refém de algo, a diferença primordial entre elas é que a primeira não exclui o sujeito da responsabilidade dele ser quem ele é. Para a psicanálise, o sujeito tem que assumir o encargo de seus atos, de suas escolhas para produzir alguma mudança na sua vida.

BIBLIOGRAFIA

TEIXEIRA, M. R.; Alcance e limites da prática psicanalítica no início do século; Vicissitudes do objeto. pág 223 a 232. Álgama Psicanálise Editora Ltda. Salvador- BA, 2005.

Leia a seguir o depoimento de Fernada Torres dado à Folha de São Paulo, no dia 05 /fev/ 2011.

Rivotril

Não sei se o homem das cavernas tinha mais ou menos ansiedade que um sedentário de meia-idade 

NUNCA FUI corajosa. Depois do nascimento dos meus filhos, o instinto de preservação quintuplicou minha covardia latente. Lutei contra a natureza por quase 20 anos, mas a maternidade me venceu por completo.
Li com inveja e espanto a notícia de uma mulher que desconhece o medo. A síndrome de Urbach-Wiethe destruiu sua amígdala, uma estrutura em forma de amêndoa situada no fundo do cérebro, e desarmou seus alertas internos de proteção e perigo.
Seria isso uma benção ou uma danação?
O fim do ano de 2010 foi especialmente difícil para mim e os meus. Mortes na família, doenças graves, decisões urgentes e infecções sorrateiras culminaram no funil esperançoso de Natal e Ano-Novo. O resultado foi um temor angustiado que virou o ano de mãos dadas comigo e se recusou a voltar a um nível tolerável depois de passadas as festas.
O processo ansioso, cego e insistente, o choro que alimenta o choro, levou muitos amigos a me aconselharem uma visita a um psiquiatra. O nome que mais ouvi, antes mesmo do telefone de um especialista, foi o do milagroso Rivotril. A panaceia me foi descrita como um unguento milagroso, capaz de cortar a sinistrose pela raiz.
Em “O Erro de Descartes” (Companhia das Letras, 336 pág., R$ 63), Antônio R. Damásio faz uma advertência contundente a respeito do uso indiscriminado de antidepressivos. Segundo o neurologista português, abrir mão da tristeza é dar adeus a uma das poderosas armas evolutivas responsáveis por manter a raça humana em estado de atenção. Anular a dor seria uma solução tão estranha quanto desligar o radar para não sofrer com a antecipação da tempestade.
Eu não sei se o homem das cavernas, correndo diariamente o risco de ser devorado por uma besta-fera, tinha mais ou menos ansiedade do que um sedentário de meia-idade que assiste às infindáveis hecatombes cotidianas pela TV. Talvez a luz elétrica e o computador tenham nos trazido mais frustrações do que amparo, talvez as paúras de uma vida tão afastada da feroz mãe natureza só se aplaquem mesmo mediante o uso de medicamentos, não sei.
Eu sempre desconfiei das bulas reguladoras do humor; do humor, do sono e do apetite. E foi com tal desconfiança que me dirigi à psiquiatra, uma mulher inteligente de quem ouvi uma explicação bastante convincente para os efeitos benéficos que um antidepressivo, ou um ansiolítico, poderiam me trazer.
O cérebro é um órgão dotado de uma impressionante capacidade de se remodelar. Graças à essa plasticidade, nos recuperamos de derrames graves, aprendemos a tocar instrumentos e agimos com rapidez diante de situações-limite. Os neurônios acionam novas sinapses, criam vias alternativas, ligam e religam circuitos conforme a necessidade.
Mas a persistência de um estado melancólico, por exemplo, potencializa determinadas correntes neurais, fortalecendo uma rede funesta que impede o surgimento de novas saídas para o espírito. Como um rio sobrecarregado em uma enchente, a força das águas foge ao controle da própria vontade e deságua na chamada depressão.
O remédio interditaria o pessimismo vicioso e daria chance ao cérebro de se rearticular. Convencida a derrubar a fundação do muro das lamentações, experimentei o famoso Rivotril pela primeira vez, adiando a investida no antidepressivo.
Passei três dias sonolenta e algo abobalhada, evitei dirigir. No terceiro dia, desestimulada e apática, achei que estava pior que antes. Decidi não recorrer ao medicamento na quarta noite e tive dificuldade para dormir. Quando cogitei tomar uma gota do elixir para ir ao encontro de Morfeu, os sinos de emergência badalaram soltos sob a pele.
Nunca tive problema de sono. Qualquer droga, lícita ou ilícita, que mexa com esse metabolismo me arrepia os cabelos. Fritei no lençol até cinco da matina. Passei o dia seguinte imprestável e, no outro, depois de uma noite bem dormida e sem sedativos, acordei refeita.
O Rivotril me ajudou. Ele agiu como um elefante branco que a gente põe na sala e, no dia que tira, sente um alívio inaudito; mas não resolveu. Sem o auxílio da farmacêutica, recorri a um amigo que insiste em estar vivo há mais de 74 anos.
“Finja! Crie um personagem e finja ser ele”, me disse Domingos Oliveira. “Quem enfrenta a realidade enlouquece, a única saída para a sanidade é uma dose de alienação. A arte é a única saída possível.”
Não foi bem pela arte. Meu escapismo atendeu pelo nome de Fernando de Noronha. O mar, os bichos marinhos, o sol e a natureza agreste reverteram violentamente os fluídos da minha psique.
Bem que a psiquiatra avisou que uma ação desse tipo também poderia dar certo.
fonte: Folha de S. Paulo (sab, 5 fev, 2011). Autora : Fernanda Torres