sexta-feira, 26 de abril de 2013

Os traumas na cura analítica – Bons e maus encontros com o real

por Christiane Alberti, Marie-Hélène Brousse

 

Há uma teoria espontânea do trauma. O que não podia acontecer, aconteceu. Impensável! Inimaginável! Insuportável! Demais.

“Perco o controle” – Diante do impossível realizado o sujeito está perdido, não é mais o que ele era, nem para si nem para os outros. Nenhuma resposta vale. O sintoma explode.

A medicina, apoiada na ciência moderna, busca então uma solução – a pílula do dia seguinte, a preparação antecipada, a verbalização imediata. É a resposta pelo apagamento da memória – que tudo possa voltar a ser o que era antes e que os homens voltem a se ocupar dos seus afazeres tal como o imperativo do laço social exige. Não aconteceu porque não deveria ter acontecido. A questão surge: como viver depois do trauma sem o trauma?  Não se tira nenhuma lição do trauma.

Como o trauma faz parte da existência e não pode ser eliminado, a psicanálise opta por uma estratégia diferente, mais pragmática. Nenhuma alteração da memória, nenhum apagamento, nenhuma contra programação, nenhuma catarse, poderão eliminar o real. Mesmo supondo que tais soluções sejam possíveis, os danos colaterais seriam grandes demais e inaceitáveis do ponto do visto ético.

Então, o que propõe a psicanalise?  Ela considera que o trauma aconteceu, que ele modificou o sujeito e que ele se apresenta como avesso de um ato. E por isso que ela escolhe tirar do trauma um ensinamento. Desde a sua origem, a psicanálise, os analistas, Freud antes de todos, tiveram que reconhecer uma evidencia clínica: a realidade psíquica não coincide de modo algum com a realidade objetiva, seja ela fatual ou do discurso.

Mais ainda, a noção de trauma exige uma nova definição do fato e do evento que seja congruente com o sujeito do inconsciente. Lembremo-nos do celebre exemplo citado na Interpretação dos Sonhos revisto por Lacan.

Um pai perdeu seu filho, perda cruel, trauma no sentido comum. Exausto, ele pediu a uma pessoa familiar que se ocupasse de velar alguns instantes o corpo do filho amado. Mas, por sua vez, esse homem adormeceu ao lado da criança que, ela, dormia o seu sono derradeiro. De repente, um barulho: o fogo começou a queimar o corpo do filho amado. Esta é a realidade. Como é que o inconsciente responde? Por um pesadelo. A criança se aproxima e murmura “Pai, não vês que estou queimando?”. Onde está o trauma? A impossível voz do morto, eis o que verdadeiramente desperta o pai.
 
Uma imagem indelével, a erupção de um terror, a exacerbação de uma emoção, uma palavra eternamente inarticulável, são múltiplas as referencias às feridas que não se apagam, “perdas imaginarias no ponto mais cruel do objeto”. A expressão é de Lacan que celebra, na perda, a relação do trauma aos objetos, deixando o sujeito desnorteado, em um mundo que perdeu o sentido.
 
Aqui inicia-se o tratamento, no intervalo da fratura do sujeito, da perfuração da sua realidade. Sobre estes pontos de fixação, a maquina de produzir sentido se precipita e se esgota, confrontada ao que cegamente, o inconsciente real, não cessa de repetir.
 
Todo mundo delira, isto é, dá seu próprio sentido, porque todo mundo é traumatizado. Mas o delírio não liberta do trauma. Quando isso se repete, em quais condições um eu pode advir?
 
À universalização do delírio dos Uns-sozinhos, responde a generalização do trauma. O mal estar correlacionado ao sintoma cedeu seu lugar ao trauma relacionado à rejeição da marca, na medida em que o simbólico perde seu poder diante do real. A utopia dominante não é mais o recurso ao pai, mas ao risco zero com a docilidade geral que ele implica. Porém, não se leva ai em conta essa “coisa obscura” que está em nós. Cabe à psicanálise atribuir-lhe seu justo lugar, sempre singular, sempre contingente.
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O que é que se transmite, do pai e/ou da mãe, à criança?

* Por Daniel Roy, Lacan Cotidiano 275
 
O que é que se transmite, do pai e/ou da mãe, à criança? Esta questão encontra-se no centro dos posicionamentos atuais sobre a extensão da família « conjugal », e que já engloba diversos modos de «fazer família» - casamento, PACS, família dita « recomposta », casais homossexuais com filhos – e mesmo, possivelmente os casais homossexuais casados. A psicanálise, tão frequentemente desacreditada, é convocada neste ponto para carimbar a necessidade natural ou simbólica, e segundo, um modo de transmissão normatizado , para o bem-estar da criança : um papai + uma mamãe.
1- A transmissão: o que é irredutível?
A extensão atual de uma conjugalidade do tipo «familiar» sublinha a função «residual» da família no corpo social, indispensável a transmissão de uma constituição subjetiva.  O que é irredutível não é a transmissão da vida – pais ditos biológicos, o direito às origens, etc. – mas a relação com um desejo que não é anônimo.Isto não se opõe em nada com o fato de que os sujeitos tenham conhecimento das condições de sua vinda ao mundo, isto indica, apenas, que o vivo da questão da transmissão atravessa estas   diversas representações, necessariamente presentes.
2- As funções do pai e da mãe : à qual necessidade respondem?
Torna-se extenuante definir uma repartição de  « papéis » maternos e paternos : diversos corpos falantes fazem-se hoje os suportes dessas duas funções, fora de toda repartição «natural» (sexo) ou «cultural» (gênero). Portanto, o que são estas funções? A função paterna, indica apenas uma coisa: a necessidade da castração! É muito, já que trata-se de encarnar uma autoridade que não tem a não ser a garantia da palavra. A função materna, indica a necessidade de transmitir a marca de um interesse particularizado, ou seja, a presença de um desejo. Então, aqui estamos de volta ao ponto de partida (um papai + uma mamãe)? Não de todo: cada ser falante pode se fazer o suporte destas duas funções, isso esta aberto. A única certeza, é que o fará às suas próprias custas. Portanto, não é de forma alguma certo que esses nomeados «os pais » façam o trabalho: neste caso, a criança vai lidar com isso de forma diferente.
3- O que conta, é o que vem deles, isso não é porque sejam dois, de sexos diferentes. De qualquer modo, para cada um deles, a diferença dos sexos existe e os dividem, ou mesmo os afligem. O princípio permanece de não «combinar» demasiado os pais, quer eles sejam homo ou hétero: nos melhores dos casos, o que os une, ou os desune, é enigmático para a criança.
Mas o que uma criança pode, portanto, receber de um homem ou de uma mulher, enquanto que eles se reconhecem «pai» ou «mãe»? Para um pai, Lacan sublinhará que inevitavelmente, a criança cairá sobre o seu «pecado», sobre a sua falta: ele vai fazer bem, nomear com ardor, pois, nunca esgotará o gozo da língua...encarnado pela mãe, aquela que ensina a sua criança a representar !
Então, um pai sempre carente – irá transmitir a castração -, uma mãe que institui a mascarada – transmitindo o particular do seu desejo: extrai-se aqui da « conivência social » que continua a fixar a criança à mãe, fazendo-a «a sede eleita das interdições» (Ah, o incesto e o incestuoso que sempre ameaçam).
4- Há um mal-entendido !
O mal-entendido « que sua linhagem lhe transmitiu dando-lhe a vida », consiste no fato de que não há nada de natural, nem de sobrenatural, para fazer laço entre um pai, uma mãe e uma criança. Não tem nada de outro para ligar os membros da família – qualquer que seja a sua composição -, que este enigma evidenciado por Freud, que nenhum ser falante saberia « de onde vêm as crianças ». Assim, os seres falantes não estão em dívida, no que diz respeito, aos seus pais, porque eles lhe « deram a vida », mas porque eles lhes transmitiram esta falta, este defeito inerente a todo discurso, por não poder dar conta da aparição de corpo falante no real, que não seja, pelo mal-entendido da palavra.
Assim, de nenhuma forma, estas funções paternas e maternas, liberadas pela psicanálise, não podem fundar uma norma « familiar », e as diversas famílias, qualquer que seja suas constituições, podem ser, para o pequeno do homem que é ai acolhido, o lugar desta dupla transmissão :
1) que o habitat da linguagem com efeito é o lugar de uma separação - a castração -,
2) que há de inventar com a alíngua um saber-fazer com o gozo – com a mascarada -.
O fracasso é, portanto, aqui a única norma: os avatares da família moderna o ilustram com estrondo(s), conjugando separações e mascaradas nas configurações inéditas !

Parágrafo 1 e 2: Lacan J., « Nota sobre a criança », Outros escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003, p. 369
Parágrafo 3: Lacan J., Seminário, Livro  XVII, O avesso da psicanálise, Rio de janeiro, Jorge Zahar, p. 89 e p. 129
Parágrafo  4 : Lacan J., « Le malentendu », Ornicar 22-23, printemps 1981, p. 12

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Os imbróglios do narcisismo


* texto de Éric Laurent, publicado em LACAN COTIDIANO 75
Tradução: Zelma Abdala Galesi
Revisão: Maria do Carmo Dias Batista

 

A miragem do narcisismo e a morte, desde a mitologia grega e a sua retomada freudiana, têm as mais estreitas relações. O recurso mais escondido do narcisismo é o de escolher seu caminho para a morte. Em seu escrito Uma criança é espancada, Freud pôde evocar a transformação do sadismo em “masoquismo passivo, novamente em um sentido narcisista”.
Em seu texto final sobre Moisés e o monoteísmo, ele generaliza os danos causados pelos traumatismos precoces e as feridas narcísicas que implicam. Há, portanto, algo de podre no reino do narcisismo, de onde a felicidade está excluída.
Lacan fez dessa tensão sem rémedio, da impossibilidade de reintegrar sua imagem, da impossibilidade que ela seja sem ferida, o recurso central do imaginário. É a chave da relação de cada um com sua imagem, e além dela, com toda representação possível de si como si mesmo.
O desaparecimento recente de Steve Jobs e o marketing implacável que trouxe ao mercado a biografia autorizada quinze dias após a sua morte, nos leva a refletir a céu aberto sobre os imbróglios do narcisismo. As exigências de Steve Jobs e sua ideia do gosto (taste) pelos pequenos detalhes, fizeram a originalidade dos produtos da Apple. Elas também tornaram mais de um colaborador emocionalmente louco de raiva. Podemos ver sua famosa declaração: “Sejam loucos, sejam insaciáveis”, é bem dele, que fazia regimes vegetarianos muito particulares, assim como a ideia de que o corpo deve seguir o espírito. A revista Fortune escreveu sobre ele “que é considerado como o maior egoísta do Silicon Valley”.
Em outubro de 2003, quando descobre que está sofrendo de uma forma de tumor pancreático relativamente rara, “um tumor endócrino nas Ilhotas de Langerhans”, ele recusa por nove meses a operação, com a qual lhe garantiram sucesso sobre o câncer. Para finalmente ceder às recomendações da elite médico-digital californiana. Torna-se, então, o melhor especialista sobre ele mesmo e sua doença, mantendo um rigoroso controle sobre cada decisão. Ele faz sequenciar todos os genes de seu tumor, assim como a totalidade de seu DNA, pelas equipes universitárias de Stanford, John Hopkins, Harvard e do MIT, em colaboração. Isto lhe custará 100.000 dólares e ele se tornará uma das vinte pessoas no mundo a ter seu DNA completamente sequenciado. Disso se deduz um tratamento personalizado que abre também a via para tratamentos inovadores. Ele confidenciou a seu biógrafo: “Ou eu serei o primeiro a sobreviver ao tal câncer ou um dos últimos a morrer dele”.
Esse espírito furiosamente original, solitário, singular, era pouco dotado para a paternidade. Ele tinha grande desejo de "pensar diferente", mas teve de repetir os traumas de infância com seu séquito de feridas narcísicas, como teria dito Freud. Ele que tinha sido abandonado por seus pais, que o haviam concebido fora do casamento aos 23 anos, concebeu também fora dos laços do casamento, aos 23 anos, uma criança e a abandonou por longos anos. Quando ele descobre que sua futura esposa, Laurence Powell, negociante em Goldman Sachs, estava grávida, ele pensa em voz alta em abandoná-la por outra. Quando sua filha quer ir para Harvard, ele se recusa a pagar a taxa de inscrição, e será um amigo da família que fará o adiantamento. Ela não o convidará a cerimônia de formatura. Maureen Dowd cita esse amigo, Andy Hertzfeld, que atribuiu a causa de sua "crueldade deliberada" para com os seus próximos, ao traumatismo do abandono.
Jacques Derrida, em uma entrevista de 1987, comentando sobre seu projeto autobiofotográfico, falou um pouco mais sobre a sua vontade de restaurar um "direito ao narcisismo." Não há o narcisismo e o não-narcisismo, há narcisismos mais ou menos compreensíveis, generosos, abertos, amplos, e aquilo que se chama o não-narcisismo é, em geral, apenas a economia de um narcisismo muito mais acolhedor, hospitaleiro e aberto à experiência do outro como outro. Acredito que sem um movimento de reapropriação narcísica, a relação com o outro seria absolutamente destruída, seria destruída com antecedência. (...) É preciso esboçar um movimento de reapropriação da imagem de si-mesmo para que o amor seja possível, por exemplo. O amor é narcisista. Portanto, há pequenos narcisismos, há grandes narcisismos, e no final, há a morte, que é o limite.
Da experiência – se houver uma – da própria morte, o narcisismo não abdica absolutamente”.
Jacques Derrida e Steve Jobs sonham, sem dúvida, em fazer de sua morte uma experiência. Seria um fantasma obsessivo? Deixemos a eles a última palavra lá em cima [ou sobre... (o assunto)]. Silêncio.


_______________________________________________________________________
A entrevista de Derrida citada por Éric Laurent encontra-se no site Derrida em castelhano.
"Não há o narcisismo" (autobiofotografias) - Jacques Derrida. Lançado em um programa da France-Culture por Didier Cahen, “O bom prazer de Jacques Derrida”, em 22 de março de 1986, e publicado sob o título “Entrevista com Jacques Derrida”, em Digraphe, n. 42, dezembro, 1987.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Notas sobre a cracolândia

por Contardo Calligaris.

Alguns leitores pediram que eu me posicionasse sobre a operação policial que tenta acabar com a cracolândia de São Paulo. Aqui vão três posicionamentos. 1) Sou contra violência e abusos repressivos (em tese, o governo também é).
2) Com ou sem internações não voluntárias, com ou sem a boa vontade de ONGs e igrejas, só uma ínfima parte dos drogados desistirá do crack e da errância pelas ruas da cidade.
3) E enfim, em tese, sou a favor do projeto de acabar com a cracolândia, mas não me orgulho disso, por duas razões: a primeira é que tenho carinho pelas sarjetas urbanas e ainda sinto falta da Times Square de Nova York nos anos 1970; a segunda pede uma explicação mais longa.
A operação cracolândia e o debate que a acompanha na imprensa ilustram as dificuldades do poder na modernidade. Num dos seus melhores seminários (o de 1975, "Os Anormais", Martins Fontes), Foucault mostra que esse poder oscila entre dois modelos: o da lepra e o da peste. Os diferentes e infratores podem ser retirados da circulação, fechados na prisão, na colônia agrícola, no antigo asilo. Esse é o modelo adotado para a lepra; ele segrega no lazareto.
Mas, às vezes, os diferentes e infratores, muito numerosos, espalham-se pelo tecido social de forma que sua segregação seria improvável. É o que acontecia no caso da peste. Os contaminados, então, não eram fechados em lazaretos afastados, mas a cidade era dividida em quadras, que eram vigiadas por, digamos, agentes sanitários: os doentes eram proibidos de deixar seu domicílio, e o governo administrava a vida (e a morte) deles dentro de suas próprias casas.
O modelo da peste tinha duas vantagens: ele permitia gerir intimamente a vida concreta das pessoas, e sua motivação aparente era nobre: "curá-las". Por isso, aliás, ele contaminou o modelo da lepra: quase não há mais detenção (modelo da lepra) que não cultive a ilusão de que ela será, para o detento, uma ocasião de redenção ou de cura (modelo da peste).
Hoje, podemos ser infratores e incômodos, mas raramente somos "ruins" e irrecuperáveis: seremos emendados pelos bons cuidados da sociedade, pois, de fato, éramos (ou melhor, estávamos) apenas "doentes". Será que este modelo nos deixa mais livres? Engano. Atrás da face indulgente do poder que se inspira no modelo da peste (o infrator estava doente, não fez por querer, está "desculpado"), esconde-se uma face especialmente tirânica: qualquer ato dissonante é reconhecido não como fruto de rebeldia ou originalidade, mas como efeito de uma patologia. Você é contra? Você é diferente? Pois bem, você está doente. Não há mais dissenso -só enfermos e loucos.
Voltemos à cracolândia. Talvez a toxicomania, uma vez instalada, seja uma espécie de doença. Mas a escolha inicial de se engajar na droga, será que é uma doença? Consideraremos doente (por alguma disfunção do córtex pré-frontal, por exemplo) qualquer sujeito que não se autorregule como a gente?
Anos atrás, jovem psicanalista, no norte da França, eu me ocupava de adolescentes "problemáticos" pelas drogas que consumiam, pela desistência escolar, por uma criminalidade difusa e pela violência contra os adultos que se opunham a suas vontades. Alguns eram filhos de excluídos, outros inventavam uma marginalidade própria, não herdada.
Um desses jovens escutou pacientemente enquanto eu tentava convencê-lo a frequentar as sessões de terapia e a aceitar a ajuda de uma assistente social, que facilitaria sua reinserção. Quando acabei, ele me disse, pausadamente, olho no olho: "O que lhe faz pensar que eu queira ter uma vida parecida com a sua?".
Conclusão. Podemos tentar curar os "noias", ou seja, esperar suprimi-los de um jeito mais radical do que apenas prendendo-os. De qualquer forma, agimos porque os achamos insalubres para nós.
E peço que ninguém pretenda me convencer que a dita cura, à diferença da segregação ou das porretadas, seria para o bem (ou para a dignidade) deles.
Detalhe. Originalmente, os modelos da lepra e da peste foram maneiras diferentes de lidar com o risco de um contágio. Quando tentamos "curar" vagabundos ou drogados talvez estejamos também reagindo ao risco de um contágio pelas margens sociais. Como assim?
Nunca estamos realmente convencidos de que temos razão de sermos bem pensantes e bem comportados. "Curar" à força os perdidos da cracolândia nos ajuda a evitar a sedução que sua "noite suja" exerce sobre nós.

sábado, 12 de novembro de 2011

Beleza Fabricada

* Texto retirado do livro Polêmicas Contemporâneas, capítulo Beleza Fabricada, coleção e SESC SP, Editora Lazuli, por Jorge Forbes.



Um dia, talvez quando os historiadores se debruçarem sobre os últimos vinte anos do século 20, notarão que uma das suas mais claras características foi o estabelecimento do "sem limite". Sem limite de distância, com a revolução da Internet; sem limite da cura, com novos medicamentos, clonagens, partos fabricados; sem limite da segurança, com carros blindados e guardas armados; sem limite da beleza, com plásticas estéticas e dermatologia cosmética. E esses historiadores constatarão um paradoxo: ao contrário do que o "bom senso" poderia esperar, não acompanhou esse formidável progresso uma taxa equivalente de felicidade e de bem-estar, ao contrário, o que se viu foi o crescimento dos quadros depressivos e das toxicofilias. Surpresa! O que aconteceu? Em um primeiro momento pensou-se que os novos métodos não traziam a almejada felicidade por estarem sendo sub-utilizados e, em conseqüência, tocou-se a multiplicá-los. Se um guarda é pouco, contratam-se dois, ou três, ao mesmo tempo que se transforma a casa em casamata, nada ficando esta a dever às celas de um presídio de segurança máxima. Conclusão: é a vítima em potencial, em seu afã de proteção, que acaba na cadeia, e, pior, por auto-aprisionamento.
Raciocínio semelhante pode ser empregado para os outros novos remédios tecnológicos. Tomemos a beleza. Descobriu-se que o botox tem propriedades paralisantes da pele que propiciam o desaparecimento das rugas, porta-vozes da velhice. O local onde é mais aplicado é na testa, fazendo-a ficar "lisinha" (sic), esse é o efeito pretendido. Ocorre que, ao ser aplicado no meio da testa, muda a expressão facial da pessoa, pois, as laterais estando livres, as sobrancelhas se arqueiam só nas pontas externas, reconstituindo, em anima-nobili (o nome acadêmico da espécie humana), os mesmos traços das terríveis bruxas das histórias em quadrinhos. Belas, sem dúvida, mas bruxas. Aí, para retirar o efeito bruxa, só aplicando um pouquinho mais de botox nas laterais. Pronto, agora não é mais bruxa, é só uma Barbie aparvalhada, com cara de vazio. Finalmente, é o prêmio de consolação, basta aguardar alguns meses para o botox ser reabsorvido, voltando tudo à velha forma; no caso do botox ainda dá para remediar.
Onde está o limite? Deslocadas pelas evoluções científicas de seu terreno chamado "natural", as pessoas sofrem hoje de uma verdadeira síndrome do "sem limite". Será que a única solução é o limite da dor, como quando uma pessoa se vê encarcerada em sua própria casa (ainda está na memória de todos a história do banqueiro que morreu queimado em seu banheiro superprotegido), ou de quando seu rosto perdeu a vida? Ou, ainda, seria uma solução marcar o próprio corpo na tentativa de fixar um limite? Da automutilação às tatuagens e aos piercings a fronteira é tênue.
O que esperamos é que a crítica esclarecida faça um trabalho de separação entre os formidáveis avanços científicos dessas últimas décadas e a ideologia a eles parasitária do tudo-pode, tudo-tem-jeito. Caberá a médicos e pacientes e, de uma forma mais ampla, a fornecedores e usuários, responsabilizar-se pelo estabelecimento de novos limites. Deverá se privilegiar aquilo que se quer e não o que se pode.
A época da globalização em que estamos entrando exige de cada um o exercício de seu próprio limite, que hoje em dia vem menos da "natureza" que da própria escolha responsável. É aquilo que eu quero que me restringe, e não o que o outro, o tempo, por exemplo, me impede de conseguir. Ah, mas não é nada fácil o exercício da expressão do querer. A pergunta: "Você quer o que você deseja?" é uma das mais difíceis de responder, tanto por mulheres quanto por homens. Mas isso já é assunto para um próximo artigo, porque também aqui há limite.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Preciso de você

* Artigo publicado na Revista Psiquê n°63, março de 2011, por Jorge Forbes.
A jornalista me pergunta impressionada a razão de novas pesquisas constatarem que, contrariamente ao que muitos esperavam, o povo da internet cada vez mais associa seus passeios na rede com a necessidade de estar junto. Esse fato relativiza as críticas morais que bradam ameaçadores avisos anunciando que o mundo estaria perdido, pois a www -  World Wide Web – seria uma teia perigosíssima que estaria aprisionando nossa pobre juventude, em um isolacionismo narcisista e emburrecedor.
Essa notícia chega ao mesmo tempo em que o Papa se precipita em condenar um aplicativo para smart-phones, através do qual o fiel antenado se confessaria on line, sem a necessidade de se ajoelhar na madeira dura de um confessionário escurecido por muitos pecados ali penitenciados. Ao menos dessa vez, ufa!, o Papa mostrou que “tá ligado”, pois a web não substitui a presença física.
Na mesma vertente, podemos falar da repetitiva pergunta se é possível fazer análise por skype, ou serviço semelhante, sem ter que se preocupar com o terrível trânsito das grandes cidades, bem como se garantir em ter seu analista à mão, ou melhor, na tela, entre um mergulho e outro, em uma ilha paradisíaca, do outro lado do mundo.
Não dá. Há um quê na presença física que é insubstituível. E se dizemos “um quê” é exatamente pelo fato de não podermos precisar o que é isso da presença física que não sabemos traduzir em nenhum idioma e por nenhum meio, razão pela qual não a podemos substituir, pois, como celebrou Michel Foucault: “a palavra é a morte da coisa”; se falamos de algo, substituímos o algo pela palavra e não precisamos mais dele.
Em um mundo que quebrou os paradigmas cartesianos de espaço e tempo, jogando-nos no furacão do ilimitado sem fronteiras, não há nada a estranhar na necessidade da presença física do outro, do corpo do outro, do seu enigma, do cheiro, cor, som, movimento, textura, olhar, que não sabemos traduzir em bytes. Esse enigma do outro é o remédio para a angústia tão atual, por nos termos visto transformar em habitantes de lugar nenhum.
Seis mil moças e moços geeks se acotovelaram por uma semana, em São Paulo, em uma festa chamada Campus Party. Seis mil!, em um pavilhão de exposições. É tão importante estarem juntos, que um nipo-brasileiro, morando ao lado do local da festa, trocou o conforto de seu quarto, por uma tendinha de campanha, verdadeiro elogio do desconforto.
A presença do outro nos remete ao mais essencial de nós mesmos. Se fôssemos honestos, parodiando Vinícius, jamais diríamos expressões do gênero: “no meu íntimo”. E isso porque o que nos escapa é exatamente o nosso íntimo. Diríamos, melhor, com Lacan: “no meu êxtimo”, sim, porque o meu íntimo me é tão estranho – quem já passou por uma análise sabe bem o que estou descrevendo – que melhor chamá-lo de êxtimo, clara alusão ao estranho e ao externo de si mesmo, que habita cada um.
Podemos nos livrar de muita coisa na vida, mas não da gente mesmo, em especial desse ponto íntimo desconhecido, promotor de nossas paixões, essa força estranha vivida na sensação do “mais forte que eu”. A presença física do amigo, do amado, do familiar, do próximo, nos reconecta com esse ponto fundamental, âncora de nossas existências, ponto transcendente de nossa imanência, se quisermos nos valer do discurso da Academia.
Nesse mundo de aparente tudo pode, e de em tudo estou, não por isso devemos nos assustar que ao lado do aumento dos acessos aos meios virtuais, vejamos crescer em paralelo os lugares de encontro físico, sejam eles campus parties, igrejas, consultórios, bares, cruzeiros. Os motivos são variados e o que neles se realiza, também, mas a necessidade é uma só: estar junto. Na era da pós-modernidade, onde o laço social das identificações é predominantemente horizontal, nos damos conta que o principal afeto, o mais fundamental afeto, é o da amizade. Cada pessoa precisa de alguém que o ajude a chamar o seu êxtimo, de meu íntimo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Meus pais são bipolares

* Matéria do jornal A folha de S. Paulo, do dia 22/09/2011, de Contardo Calligaris.

O termo "bipolar" se tornou corriqueiro na boca dos adolescentes. Não é que eles citem diagnósticos psiquiátricos, no estilo "sabe, minha mãe toma remédio porque os médicos dizem que ela é bipolar".

Nada disso; para eles, o termo é a descrição genérica de um estado de espírito dominado por altos e baixos radicais. Além disso, muitos adolescentes acham que, hoje, ser bipolar é a regra.

Não acho ruim que termos clínicos se vulgarizem e entrem na linguagem comum. Só me preocupa o fato de que, às vezes, psiquiatras e psicólogos adotam essa vulgarização, confundindo a tristeza banal com o transtorno depressivo ou, então, variações do humor banais com o transtorno bipolar.

Com isso, claro, a indústria farmacêutica faz a festa, pois vende antidepressivos a pessoas que estão apenas tristonhas ou morosas e estabilizadores do humor a pessoas que são apenas mais alegres pela manhã do que à noite. Seja como for, talvez os adolescentes tenham razão. Talvez a bipolaridade, além de um transtorno para alguns, seja hoje um traço da personalidade de todos nós. Por quê? Um pequeno desvio para responder.

Existe um grupo de trabalho encarregado de revisar o "Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais", cuja quinta versão ("DSM V") será publicada em 2013. Esse grupo manifesta periodicamente suas decisões e seus pensamentos no site www.dsm5.org. Foi assim que em 2010, se não me engano, soubemos que o "transtorno da personalidade narcisista" sumiria da próxima versão do "Manual". Tanto mais bizarro que, aos olhos de muitos (assim como aos meus), a personalidade narcisista, longe de estar extinta, é a que melhor resume a subjetividade contemporânea. Antes de defini-la, vamos ver quais foram as reações.

A más línguas observaram que sempre somem os transtornos contra os quais a indústria farmacêutica não tem remédios para vender (não existe pílula para transtorno narcisista, enquanto existem várias para bipolaridade e depressão).

Outros, considerando que o transtorno da personalidade narcisista coincidiria com o espírito de nossa época, acharam normal que ele não fosse mais considerado como uma patologia.

Enfim, muitos psicanalistas (sobretudo alunos de Heinz Kohut e de Otto Kernberg, grandes intérpretes do narcisismo) protestaram, e eis que, numa revisão de 21 de junho passado, o transtorno narcisista reapareceu no "DSM".

Em síntese, o narcisista não é, como sugere a vulgata do mito de Narciso, alguém apaixonado por si mesmo ou por sua imagem no espelho. Ao contrário, o problema do narcisista é que ele depende totalmente dos outros para se definir e para decidir seu próprio valor: ele se orienta na vida só pela esperança de encontrar a aprovação do mundo.
Infelizmente, nunca sabemos por certo o que os outros enxergam em nós. Às vezes, o narcisista se exalta com visões grandiosas de si, ideias infladas do amor e da apreciação dos outros por ele; outras vezes, ao contrário, ele despenca no desamparo, convencido de que ninguém o ama ou aprecia.

Ora, a modernidade é isso: um mundo sem castas fixas, onde cada um pode subir ou descer na vida justamente porque seu lugar no mundo depende da consideração (variável e sempre um pouco enigmática) que os outros têm por ele.

Ou seja, a modernidade nos predispõe a um transtorno narcisista permanente e, no coração dessa personalidade narcisista (sina de nosso tempo), há uma oscilação bipolar.

O adolescente tem razão: a bipolaridade talvez seja especialmente manifesta nos pais. Como disse, na sociedade moderna, só somos o que os outros reconhecem que sejamos, e os pais não são uma exceção a essa regra.

Nem lei simbólica, nem legado divino, nem provas genéticas bastam para me transformar em pai ou mãe de meus filhos. Hoje, para eu ser pai ou mãe, é preciso que os filhos me reconheçam como tal, ou seja, sem o amor e o respeito de meus filhos, eu não serei nem pai nem mãe.

Consequência: todo pai moderno é condenado à bipolaridade, entre a felicidade de ser genitor e uma consternadora queda do alto dessa nuvem. Se ele tenta educar, corre o risco de não ser mais amado e, portanto, de não ser mais pai.

Se desiste de educar para ser amado, corre o risco de não ser mais respeitado - ou seja, novamente, de não ser mais pai. É isso: os pais são bipolares.
Hoje, a bipolaridade não é só um transtorno para alguns, mas um traço da personalidade de todos nós.